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Namaskara (Rendição, entrega)

Postado dia 30/04/2008 às 09:29 horas, por Administrador.

    Definição: não sou a causa, o executor, a força, a potência, o causante da operação.

    O mantram do namaskara: AHAMASMI APARADANAM ALAYO AKINCHANO AGATIHI TWAMEVA UPAYA BUTOME BHAVA significa “estou aqui cheio de faltas, com pouco conhecimento e sem percepção divina. Vem Tu a mim e dá-me a compreensão”.

 

     Diz Sri Janardana que namaskara é “a prosternação mental realizada humildemente ante a divindade que está em cada um nós”. Numa tradução livre diríamos que namaskara é rendição e completa entrega de si mesmo à divindade.

 

     Existem dois tipos de namaskara: o negativo e o positivo. O negativo, que é mais

comum realizarmos, não poderia ser até qualificado de verdadeiro, pois não chega ser um ato de entrega, mas tão somente conseqüência de nossa incapacidade de resolução que nos leva à rendição, porque esgotamos nossa própria capacidade diante dos fatos. Entregamo-nos porque já não temos mais controle, comando, meios de, por nós mesmos, conduzirmos os acontecimentos e quase desistimos de lutar, e nos rendemos, com sentimento próximo ao de um soldado que se vê cercado e sem saída e só resta a ele se render.

    O verdadeiro namaskara é aquele que, independente de nossa competência ou não diante do que quer seja, abdicamos do comando, fazendo-nos instrumentos do Plano Maior, seguros de que, qualquer que seja o ritmo, desenrolar ou resultado dos fatos, estamos e estaremos entregues, confiantes no Processo Maior que rege a Vida Universal, aqui com sentimento de exercício daquela frase do Pai Nosso que diz “seja feita a Sua Vontade”.

     No primeiro e negativo namaskara, nos rendemos porque perdemos o fio, a capacidade de atuar sobre os acontecimentos, seja na velocidade com que transcorrem ou no resultado deles, e, assim, entendemos ou aceitamos admitindo que não soubemos ou não devemos estar à frente, quase que desistindo de colocar nossa competência  para interferir no processo, a partir de nossa lógica, e nos entregamos, quase sempre também exaustos, nos deixando à mercê e com o sentimento de que perdemos a batalha.

     No segundo e positivo namaskara, o exercício de rendição é através da consciência. Há aqui completa confiança em Algo, seja força da natureza, dharma ou até mesmo ciência que ali acreditamos ou Alguém Maior, seja guru, anjo de guarda, avatara, santo a quem nos rendemos, seguros que esse é o melhor que podemos fazer, não vivenciando como perda, ao contrário, é a certeza que o melhor advirá em função da fé, crença ou mesmo como forma de especial segurança a quem ou a quê nos submetemos.

     Não podemos tratar de rendição e entrega sem falar em exercício de vontade, livre-arbítrio, desejo. Onde fica ou onde colocamos nossa capacidade ou direito de escolha que, arduamente, aprendemos a exercitar? Isso vale uma incrível e ótima reflexão para bons e dedicados guerreiros, ou discípulos disciplinados em processo de individuação, e já capazes de conquistar suas meritórias iniciações para as quais se prepararam e já acontecendo como resultado de atento trabalho em si mesmos.

     Esse pleno direito à escolha nunca será abdicado, mas simplesmente reorganizado dentro dessa perspectiva ante Algo ou Alguém Maior a quem reverenciamos respeitosamente e nos garantirá eterna e humilde condição que vemos comumente nos Grandes Seres, verdadeiros exemplos e faróis da humanidade.

     O primeiro e mais comum namaskara nos leva a começar a desenvolver essa humildade diante de algo maior, quando, aí, involuntariamente, esbarramos no quê ou em quem e com o que começamos a sentir, por maior que seja nossa capacidade, seja como inteligência, resistência, força ou o que seja, para crescermos ainda mais naquilo que já nos sentimos competentes é preciso estarmos abertos ante o processo infinito de crescimento do qual somos parte. Quando nos deparamos com o obstáculo, que literalmente nos põe de joelhos, num aprendizado forçado, tornando-nos ali frágeis, incapazes, inseguros como eternamente seremos ante o Absoluto, nas mais diversas formas que esse obstáculo se apresentar ao longo dessa infinita jornada de auto-realização, nesse imensurável Brahma Samypia, ou eterna aproximação a Brahman. Sempre que mudamos de lição, escola, degrau, plano vibratório nos deparamos com o novo que nos ameaça e que nos cobra a eterna e nova humildade, pedindo-nos essa rendição diante do que não dominamos e que nos trará o frescor continuado diante da vida,  fazendo-nos assim simples, puros, leves ante a Vida Maior que, na sua multiplicidade, se revelará infinitamente para nossa contemplação. Quando já começamos a funcionar dessa forma dizemos que o namaskara já é natural.

      Quando no estágio evolutivo rajásico, onde já estamos disciplinados o suficiente para acreditarmos em nossa própria força, é que começamos a viver a ameaça a essa mesma força que laboriosamente construímos. Já contamos com ela e quando nos põe em risco, não dando a resposta que queríamos, ficamos irritadiços, bravos, não entendendo o porquê quando fazemos e não vemos que está resultando como o esperado. Aí começamos a ter que desenvolver esse namaskara consciente, positivo, como dissemos inicialmente, porque começamos a perceber a falha ou falência de nossos recursos e, então, outros e diferentes questionamentos que nos levam a perceber que somos plena competência e capacidade sim, mas só quando nos colocamos debaixo da Força Maior que nos move, chamando essa força Deus, Espírito, Brahman, Atma ou Purusha, a quem agora, de outra e mais responsável maneira, reverenciamos e nos rendemos.

      Esse namaskara aqui, agora positivo, consciente, construído, só é possível acontecer para aqueles que já testaram e confiam em sua própria e elaborada individualidade e que têm esse tamanho e importância quando acontece e que tanto vemos e admiramos nos Grandes Seres que, como professores, em suas vidas, quando passam aqui, nos mostram.

      Então voltamos à pergunta anterior: onde está nossa escolha e vontade? Onde, como e quando podemos desejar? Sempre!!! Mas, a partir de determinado momento, que é esse que acabamos de descrever na trajetória do discípulo, temos consciência que nosso empenho trará respostas na medida de nosso investimento, mas, ao mesmo tempo, sabemos ser sábio confiar no Plano Maior, colocando nosso desejo, todo empenho na  vontade também dessa Força Maior que é Deus em nós, nos entregando, confiantes de que, se não convergir com nosso plano ou projeto, não nos abalaremos, seguros que Algo interveio por nós, além de nossa relativa vontade e saberemos nos submeter com atitude interna não de derrota, mas, ao contrário, de que fomos amparados, mesmo que momentaneamente não saibamos interpretar ou decodificar os acontecimentos.

    Já nessa fase da trajetória começam a diminuir os projetos mais pessoais, dando espaço para empenhos mais amplos, comunitários e universais e, quanto mais abrangentes sejam, mais entregues ao Plano Maior na busca de que tal empenho está apoiado em quem confiamos e nos rendemos, só assim significando a coroação ou êxito do que fazemos, e que não o fazemos por nós, pura e simplesmente, mas com o sentido de atender demandas maiores que entendemos, por isso investimos, possam ser úteis  àqueles a quem pretendemos servir.

    Nessa fase sabemos que com empenhos bem direcionados já temos resultados, temos noção da própria força, percebendo o valor do arbítrio e por isso mesmo já não nos servimos dele aleatoriamente ou inconseqüentemente, mas cada vez mais criteriosamente em

contínua observação, sempre atentos aos sinais que a Vida num sentido maior revela.

     Tem uma palavra que, ao longo dessa fase da caminhada de auto-realização, acaba tomando importância: RESILIÊNCIA, palavra que na ciência significa – capacidade de resistir a choques, tensão sem romper ou quebrar. Essa, filosoficamente, mais que uma palavra é um treinamento, melhor ainda, conquista que fazemos, e hoje a ciência acadêmica vem comprovando como sendo a capacidade desenvolvida pela fé, religiosidade, ou mesmo crença em Algo Maior, Deus, e que pode levar à cura mais rapidamente, superação de problemas e melhor capacidade diante do viver, tornando-nos seres humanos mais fortes no sentido de mais competência para absorver e transpor o que chamamos  adversidades.

    Na biologia se diz que o ser mais adaptável é o que mais tem preparo para evolução, ou, numa linha mais simples, é o que sobrevive. No caso ao qual nos referimos, a capacidade de aceitação, de ir até limites que a maioria julgaria insuportáveis é o que vemos acontecer, gerado pela confiança, entrega e rendição, que dá à pessoa que se rende a leis maiores, sejam elas quais forem. Sempre que acreditamos em Algo Maior que nós mesmos nos fazemos mais fortes. Até nos tornarmos rajásicos (estágio vibratório intermediário da jornada do discípulo) é preciso aprender a confiar em nossa própria força, acreditar em nós mesmos, vendo e esperando os resultados de tudo que fazemos, ou seja, entendemos e sabemos ser real que o que fazemos gerará sempre respostas, sejam elas positivas ou não, a depender da qualidade de pensar e agir coerentes à maneira que funcionamos na vida. Aos poucos, essa compreensão se torna um poder, uma verdadeira força em nós com a qual contamos naturalmente e nos levará ao próximo e superior estágio evolutivo, ou sátvico (estágio vibratório superior e harmônico), e esse, para ser conquistado na plenitude, passa pelo aprendizado da rendição que testa nossa “onipotência” conquistada anteriormente e que, agora, deverá ser criteriosamente provada e de alguma forma desfeita para que saibamos que plena e absoluta liberdade e poder só o PARABRAHMAN, o Absoluto, detém. Aí aprendemos a nos submeter, não confundindo mais nossa capacidade relativa, que deverá ser sempre exercitada, ao Uno, Poder Absoluto ou mesmo Deus em cada um de nós que, como diz o versículo  biblíco....”Tudo posso naquele que me fortalece”. Aqui sim, começamos a viver o verdadeiro e positivo namaskara.

     No momento que se conquista a capacidade de experimentar o real namaskara já estamos diante de quem aprendeu a confiar em si mesmo, tendo aprendido a confiar se testou e se viu capaz de feitos que o fazem seguro da própria capacidade e que, submete sua força,  competência, conhecimento e sejam quantas mais qualidades que foram sendo desenvolvidas ao longo do caminho para até aqui chegar, a Algo Maior, ou como diz a Gita, Aquilo, que é a vida de nossa vida,  Essência  ou Individualidade Divina em cada um de nós. Abdicamos do comando por pura sabedoria e confiança que Algo Maior nos rege, não por covardia ou por termos esgotado a capacidade de luta, mas por consciência.   

      Esta é a jornada pela qual se caminha para chegar a viver este estado de entrega e rendição como vemos e admiramos na vida de Grandes Seres. Iniciaremos com pequenos exercícios aprendendo a confiar, além de si mesmo, em uma força ou ser maior, em que depositaremos nossa  segura e trabalhada confiança, e gradativamente chegaremos a completa entrega de si mesmo ao Plano Maior, descrito no Bhagavad Gita,  como sendo a última qualidade do discípulo para a completa realização do ser humano para conquistar os estágios do adeptado.

     Que nós possamos exercitando ao máximo, todo conhecimento, boa vontade e agindo coerentemente, caracterizando assim o aspecto Sankya (estudo, devoção, ação- os três primeiros Dharmas), ou seja, a  relação com o mundo objetivo, possamos  também a exercitar  o aspecto Yoga de rendição, vivencia dessa Unidade em nós mesmos que nos levará a  plenitude humana capaz da completa entrega de si mesmo, o Namaskara, coroamento de todo processo de percepção do divino em nós e consequentemente no Grande Plano Cósmico.

Julho de 2007 – Encontro de Ashrams em São Pedro

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